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Thursday, July 09, 2009

Corte

Nessa busca interminável por amor é fácil desenvolver a cegueira da vida diária. Passamos por lugares, por pessoas, na maioria das vezes com o automático ligado, como se a lógica do mundo não afetasse a nossa. Mas como? Criamos um mundo em que vivemos e outro onde há ausência de nós? Lá da janela eu avisto a rua às 7:30 da manhã. O sol brando irrita meus olhos, recuo e começo a andar. Pego o ritmo: banho, música, dentes, cabelo, tv, espelho, hidratante, roupa, perfume, café, relógio, computador, jornal, carro, rua, trânsito, celular, produção, produzir. Nenhuma palavra falada, nenhum olhar desviado. O universo de mim é infinito mas a minha expressão corporal é limitada. Irremediavelmente me deparo com a morte inevitável da ordem das coisas e dos semelhantes. Logo penso tão profundamente em cenários alternativos que a ansiedade irracional me leva a uma busca interminável por desculpas. Enganos, egoísmos... Estranho imaginar que um mais um possa vir a ser igual a um. Lanço-me na busca por centros diversos. Durmo e levanto com a impressão que dos dias em rotina não sobra nada, nem a lembrança do que foi, quando o hoje se passa como se nunca tivesse acontecido antes. Eu vou aprendendo a respirar e não a sobreviver no caos das muitas poluições diárias. Essa máquina desfaçada de humano, essa sensibilidade de sorrisos em caixa, os colírios de lágrimas, as esmolas como profilaxia-placebo da indiferença, são passos rumo ao paraíso proibido dos amantes dos descartáveis. A culpa diz que ainda há alma, o medo aprisiona em covardia letrada e de repente apenas seguimos as marcas. Siga em frente, vire a direita, não olhe para trás, aquela pedra é falsa, não ande descalço, não esqueça o casaco. Coquetéis de proteção que acabam com o sistema auto-imune. Sem sofrimento não há compaixão. Mas quem disse que necessita-se dessa compaixão? Sem dor não há crescimento. Quem disse que essa era a única via do crescer? Impressionante essas supervalorizações. Tudo parte das desculpas das culpas, essas sim parecem indispensáveis a sobrevivência humana. Não há aquele que consiga reconhecer-se essencialmente mal e diminuir-se diante do outro. Ou há regojizo na maldade ou tentativa de conquista da piedade. Somos maus, essencialmente maus, tanto quanto possivelmente bons. Nessa existência a linha é tão tênue, que nesse resgate é tudo uma questão de incidência da luz no prisma. Vista-se e dispa-se. Você acaba de romper o casulo, suas asas doem, suas pernas tremem, seus olhos estão ofuscados e você tem fome. Dê o primeiro passo na sua própria estrada, caia. Suas asas não estão preparadas, seu corpo é desajeitado e não há fala. Seu infinito tem a distância do seu galho ao chão, mas logo será da consciência de si à imensidão. Atreva-se, desafie-se. Tudo novamente. Tautologia quase hilariante, claustrofobia tirânica do prazer e da negligência. Performando o imperdoável com esse corpo deliberado em segunda ordem, vulneráveis e acusadores, nossos atos são de bombardeio e passividade irreconhecíveis. Envolvimento carismático com a opressão. Se pode encontrar outra ordem de responsabilidade? Devo narrar em primeira ou em terceira pessoa?Nada se sabe.

Tuesday, June 02, 2009

Mãos atadas


Eu bebi. Despretensiosamente bebi. Na companhia daquele amigo querido, com aquele convite fim de ocasião. Falamos saudades, discutimos problemas, contamos amores, abrimos a mesa. Puxem as cadeiras amigos-colegas-desconhecidos. Afinal, beber é compartilhar. Compartilhar até transbordar a si mesmo, até inundar-se com o outro. De repente você. Força impetuosa de gardenia augusta, doçura delicada de jasmim. Luz a forçar a porta da minha atmosfera. Fuma meu cigarro, troca minha bebida, tenta mudar o meu horário, me desafia. Eu? Sem reação. Insolência bendita nessa constelação inebriante de libra. O que você quer, o que você é? Minha sina não guia sorte e você parece feliz em não saber. Expressa e aceita célebre o meu convite sem intenção. Usa minha palavra, toma no meu corpo e me pede poesia. Acha que reprime, que finge mas não é expectante no desenrolar desse enredo, quem sabe espetáculo em comédia enquanto atores a romancear. Tua mente é agitada, solta esse ímpeto original de lirismo involuntário. Dá para aferir o desconcerto? Estonteante desestruturação nesses teus olhos vivos de agora, espelho de diamante nas asas da fantasia. Dada a encenar, o real é dissimulação e a vontade... hum... A vontade é expressão impossível de mudar. Coração livre, infortúnio dos eternos românticos. Entusiasmo sem controle centrado na contemplação, no desejo, ardente e ingênuo. Delírio harmônico de juízo sem senso, profunda sabedoria dos amantes. Minha gratidão a esse retrato sábio, cínico e inigualável. Inteireza, arrebatamento e júbilo. Você. Desata. Desce a alça e deixa teu colo a mostra. Pede palco e chama o brinde. Um brinde às ilusões no shot de tequila. Vira o copo, sente a pele e aquece o corpo. Transita, muda a direção, me pede para ficar. E depois? Vou-me. Com o teu sorriso fácil nos olhos. Observando teus fragmentos poeticamente dispersos nos cantos de luz da cidade, nas rodas que reges dos convivas, nos arcos de mistério. Te encontro em outra madrugada. Experiencio uma tensão de memória pelo estado inacabado, na mesma medida em que este patético prazer discreto do “talvez” se sobrepõe a conquista. Espero e desapareço nessa relação sem lugar. A ausência é dita a partir de quem fica. Sem permuta, a imobilidade me toma sem saber o que em ti me fascina conforme vais. Descubro que até mesmo no reino do encantado é preciso viver o luto. Deixo-te ir mas te envolves nos meus braços, te deitas no meu colo. Intuitivamente acaricio teu rosto, teus cabelos, adormeço teu corpo num sentimento pleno de acolhimento fraternal, e de longe avisto o intratável do amor. E eu, rebotalho fátuo, invoco e me prendo na gravidade deste zelo sem ambição. Anseio a asfixia da verdade-ar para desacreditar na cumplicidade deliciosa de uma noite. Ei de ver pouso para além do teu céu de perdição. Essa tua beleza ameaçadora há de partir da minha estação sem incidentes, deixando um leve vestígio do intacto e puro. Tu és o entre-muitos, inatingível ao único, ao passo em que eu, ermo, fiz a minha entrada no mundo, sou do singular que quer o mar a dois. Sob a astuciosa quimera canto versos de nunca mais onde a morte é branda e a vontade latente. No casulo das minhas palavras me traio em discurso emprestado. O amor é surpreendentemente grande e multicolor. Esse alucinar não me angustia, sem me perder te ofereço delicadeza nos meus braços de amante ou colo de amiga. Tudo significa e eu escolho a deriva. Basta-me estar ali. Será loucura temperada? Fosse o caso a ação é tua e o desejo meu. Me interessas, me intrigas, me atrais como se tua pele completasse a minha, como se minha ária fosse o ápice da tua. Diante do constrangimento congelado, o não-dito é a voz mais expressiva, fascinação e alerta, mal-estar e gozo. No capital do imaginário te guardo comigo fascinante, mas meu coração é meu e de ninguém mais.

Wednesday, May 20, 2009

Perdido


Existem aqueles momentos onde todo o sabido de si, toda a força construída em anos de legado para além de si mesmo é tocada suavemente em seu ponto mais frágil por um simples levantar de olhos do desconhecido. Caminho pelas luzes da cidade, entro em ruas desconhecidas, faço o caminho mais longo até lugar nenhum. Não há medo em se perder para quem deixou de se admitir. Semelhante tornou-se igual e nesse caos metropolitano, existe apenas o espectro de mim a vagar entre becos e planos. Abandono velado. Erros honestos. O quão longe há de se ir em angústia paralítica do sentir em abundância? Ah, os humores artificiais! Esses sim tem estrada longa e desconhecida como o abismo. Profundidade mata, superficialidade sufoca. Meus passos são lentos, minha percepção confusa, meu coração agitado. Algumas horas e o pensamento não se esgota, retorna, remonta, remonta e retorna. Os ciclos são inevitáveis nessa cela 1 por 1. Algemas do ente, barras de mim. A chuva vem como punição, e permaneço. Erguida, como deveria estar. Fria, como me ajudaste a ser. Liberto-me. Mas não importa onde eu vá, não importa o que eu faça, me governas. Não há um canto deste pretenso reino onde a tua mão não se erga e mande. A tua lembrança é cárcere sem toque e sem corrente. Dissimulo os enigmas obscuros, pinto o sol em amarelo guache nas tormentas diárias. Transformo em azul a falta de luz que me amedronta. Embora o limite da ilusão, acidental e invariavelmente, se anuncie. Ele está de volta, outra vez. Novas medidas meditam em busca de notas autênticas. Há tanto sangue-amor, tanta dor-arrependimento, tanto prazer-culpa em todos os lugares de mim. Eu não quero ir para casa. Joga fora a essência. Me deixa aprender a ser de novo. De novo. Novo. Novos projetos sem totalidade, engatinhar e me reconhecer outra no espelho, primeiro. Me deixa eliminar o presente de ti em cada ato meu. Cansei das sombras. Compro uma cerveja e volto a andar. Os prazeres são apenas para aliviar a dor. Acendo um cigarro e há quem diga que essa droga um dia vai me matar. Mal sabe este que outra droga mais sublime, há anos, me matou. Corpo é morada, mas como lembrar quando espírito não mais há? Ar. Dá-me. Puro ar aspirado em brancos flocos de neve. Respiração livre, movimentos constantes, desabafos errantes na estrada do desespero tolo. Duelo tosco. A espada é curta e de dois gumes. Plural de feridos por recompensas inúteis para faltas impreenchíveis. Pouco. Tão somente oco onde circundo. Falhei. Tudo, é, sem mim. Barato sem universo, pó mágico e “era uma vez”. Brio de paradoxo e incompetência astral na dimensão dos falsos brilhantes. Mas ainda sou o meu duplo guardado de flores e ervas naturais. Embora não saiba se é o fato ou a afirmação plausível a me acalmar quando não existe mais nada seguro. Fatais não são as iras, mas as bengalas para aguentar o passar da vida a enganar a morte ancorada no monte. Cá no chão, reles avisto, não tem remédio, entorpecente ou vício legítimo capaz de anular o sofrimento no lançar-se em acerto de contas com o destino. Te perdôo, me perdôo. Escreverei amanhã, te direi amanhã, porque ontem não fui, hoje não sou e amanhã espero a esperança.

Monday, May 18, 2009

Delicada Oleg

Lembro do brilho das marés, dos pés molhados e da lua nova. Dos teus olhos de lua cheia a dar cor ao mundo em minha volta. Verde profundo e límpido, castanhos quentes e calmos, negros-esmeraldas, misteriosos e raros. Fixo o meu olhar com encantamento à delicadeza da tua face. Teu gesto é ponte entre a palavra e o amor. Uma sede incontrolável me toma quando estais ao meu lado me guiando até o teu corpo. Cada parte parece carregar em si a doçura do sublime, ternura e poder inomináveis. Minha humanidade não te alcança. Ser gentil de sutil perspicácia. Entrelaço tua matéria a minha, sinto a tua respiração e me envergonho. Sinto-me tão pequena em teus braços. A tua presença é muito, inundo. É pouco, absorvo. Qual seja, contemplo e volto ao posto de observadora inata. Tu és virtude e eu sou vício. Graça a redimir pecado. Beleza em realidade subjetiva. Atravessas os mundos e te encerras em si mesma. Nesse concurso de emoções, o espírito puro age com simplicidade e exatidão. Compreensão sem ambiguidades, atitude espontânea e suave. És. Na tranquilidade do movimento diário. Te encontro e aquieto. Me encontro em um lugar que já não é. Numa atmosfera inebriante, vou no teu curso, acompanho teu movimentos, a música parece tocar em ti sem pausas. Batida leve e persistente, me convidas a percorrer todo o teu corpo em instantes de uma sensualidade sem toque. A iminência estremesse os meus instintos e acalma a minha busca. Tua boca se avizinha a minha e o toque é nada mais do que completude inevitável. Os segundos passam numa eternidade desconcertante. Meus lábios parecem pertencer aos teus, minha língua parece ter morada em tua boca. Num silêncio lento tua pele toma a minha em um reivindicar inocente do que é seu. A cena é involuntária, de um prazer a iniciar-se no inconsciente, a transbordar magia no real. Somos só nós duas e eu já não sei quem sou nessa multidão sem rosto. Sinto o transpirar em todos os poros e o ardor me consome devagar num enaltecer da alma. O momento é tão meu e seu que somos nós. Nós em horas perdidas. Metades idênticas na diferença,de encaixe perfeito. Lisianthus bicolor. Pressinto teu mover, aceito os teus convites, facilito teu jogo, sou escrava e senhora, te mostro os segredos do império, te faço Helena e Iracema. O gozo é tão somente destino sabido do ápice do prazer a celebrar a glória da plenitude. O brilho da estrela me cega e derrama uma lágrima. Disfarço enquanto admiro as tuas costas nuas de excelência feminina. Minha respiração altera, minha circulação agita, meus sentimentos se excitam, uma comoção incontrolável. Fechas os olhos lentamente e me abraças, como se todos os males do mundo não pudessem tocar o espaço ocupado por nós em amor. Com o teu convite mudo durmo com o corpo suado, exausto, colado, calado, seguro, junto ao teu de curvas e sensualidade das callas. Com o espírito em festa, inundado pelo espetáculo sincero do teu sorriso aberto, perdido, no prazer do sonho. Real ou imaginário? Céu de Oleg. Quando fores acordar, chama-me em sonho, te encontro no alvorecer. Na delicadeza das hortênsias, no segredo das orquídeas, no mistério das tulipas, na alegria das flores do campo, na verdade dos lírios, no exótico ds bromélias, no amanhecer dos girassóis.

Monday, May 11, 2009

Conto combinado.

Desconserto de mulher! Nem a conheço! Quanta audácia! Embora deva reconhecer o prazer de adivinhá-la pouco a pouco. Fico sugerindo em fantasia, tentando tê-la em sonho. Revoltante. Graça e independência da natureza, vontade da arte, soneto do humano. Sob a luz da lua, dela faz tudo derivar como se as coisas do mundo fossem o centro do seu próprio existir. Minha mentalidade é irracional, sem nenhum traço intelectualista em sua presença. Um sentimento vital toma conta, um gosto pelo irreal, um fascínio pelos paradoxos, um encantamento pelos mistérios. E essa ânsia pelo destino que me encontra. Em certa medida o fim, em medida alguma o meio, em algum lugar o início. Conteúdo sem representação. Descomplicado. Por que me tens? Ô ausência de revelação indignante. Me pego em branda ira, me lanço em temerosa ousadia. Não há preparo possível para desvelar teu ser. Te conto a menor parte da composição da dor suprema emergente à devassar o meu peito, e tu me avistas com esse desprezo honesto. Sente o que sinto sem engano ou fingimento, mas não desperta desejo diante de magoados suspiros. Rege o entendimento e me mostra o bem que careço, erro grave me parece esquecimento. Reconheço sem ver, encontro ainda que não ache. A chave é do tempo. Camões, valho mais no que menos mereço? Indicação satisfatória à quem a vitória concede ao acaso. Foge. A lógica não concede instrumentos, é equívoco. Equívoco. Insensatez. Delírio. Será a inclinação que tenho contra mim? É que tua presença faz sumir todo o, de mim, produzido. Boba, encantada. Alma nua a querer prolongar a estada no trópico de capricórnio. Antecipo o impossível e repasso o fato. Esses teus olhos quase sempre baixos, tímidos e temáticos. Há sempre algo a dizer, personalidade inafrontável. Sobre o teu corpo, lindamente despretensioso, o bom gosto simples, sem escândalo. Na tua boca a verdade do beijo, o respeito a vontade. No toque das tuas mãos, o cuidado. Tu cerceias os meus sentidos, paraliso diante da contemplação. Te vejo dormir, seguras minha mão e desejo apenas que o teu sonho seja bom. Caminho a experienciar um êxtase embriagado. Delicadíssimo ser. Sento ao teu lado, deito ao teu lado, beijo os teus lábios e não sei explicar. Não sei. Nessas construções discursivas não saberia dizer o que é realidade, mas se não é amor, é loucura, portanto, perdoável. Em um fino invólucro do pensamento o medo de ultrapassar o visível. Dizem que falar salva, e eu não tenho nada a dizer. Dizem que não há felicidade sem ação, e eu desaprendi a movimentar. Silêncio fonte de palavras, imobilidade raiz dos primeiros passos. Somente o olhar não se altera. Queria poder sobrevoá-la para não ter que desviar nem do teu lado empoeirado. Não são frases-feitas, lugar comum, são margens distintas, face neutra, profundo diáfano, ainda assim indecifrável. Não há como narrar o inenarrável. Há, vate? Abraço macio, colado, pleno nele. Calmo horizonte. Todos os signos dúbios, e o efêmero preenche o vazio na intensidade incansável dos fluxos. Grato tormento. Fator inesperado, fato repentino. Conexão livre de tensões. Destino: universo da sublimação. Amanhã, tudo não será nada além de um lapso temporário. Eis o combinado.

Tuesday, May 05, 2009

DEScanse as CULPAS.

Algumas vezes me pego tentando reproduzir na vida diária alguns devaneios de Virginia Woolf, me permitindo entrar no seu outro mundo, compartilhar de suas mesmas dores. Penso como seria fantástico não importar mais. Excluir o peso da luta, das preocupações, do fracasso ou mesmo do sucesso. Navegar em uma inteligência flutuante, ser um observador voluntário. Mas não sou genial, minha dor não é tão imensurável e os meus bolsos são rasos. Mesmo com a ameaça de desaparecimento, com o enfrentamento da escuridão, não há paz se evitando a vida. É impossível viver sobre a hegemonia do prazer, a infelicidade é condição estrutural. Guardo as minhas esperanças agora como punhos cerrados no meu íntimo. A dor é alívio, e eu já não sou um romântico qualquer. Não manipulo as minhas necessidades, uso a escassez e a virtude como vetor emancipatório e vejo, entre o eterno e o irremediável, o início e o fim do prazer e da realidade. Confiar sem reservas já não é uma opção, embora permaneçamos vivos pelos outros. Restrições a parte, surgem as vozes. Renuncio às satisfações instintivas ou não me amedronto diante da punição. Contudo, nada alivia o sofrimento permanente da culpa do feito ou do enfrentamento do não- concebido. Entro no rio. Direciono a minha consciência para o comportamento racional, ouvirei vozes silenciosas. Todo o abandono de si é resiliência da moral. Mas não para mim. Explicação corajosa é honestidade como final. Liberte a supressão, não resista a cura, gratifique os desejos e reconheça. Reconheça erros e acertos seus, não há poder soberano sobre os outros. Fortaleça Eros e não o sublime anunciando a destruição. Pulsões fazem parte do orgânico a restaurar o estado anterior. Rompendo a expressão de inércia, recusando satisfação na doença ou gratificação em sofrimentos usados como meio de coação. Quanta estupidez. Queria neutralizar-me, tornar-me inanimada de vez em quando. Ser passiva do primeiro instinto. Baça, irremediável e rasa. Algum dia já foi previsível morrer nessa química da vida jovem. Objetivo inalcançável na passionalidade da força vital original. Eros sempre se sobrepõe a Thanatos, toda molécula procura vida nessa linha tênue de abolição. A natureza provoca tensões e o organismo pode ser seduzido pelas falsas promessas de alívio imediato ou aceita a jornada da lida com a libido e a agressão. Me apaixono pelo destino da energia, da fantasia, da arte, da memória da gratificação. Sexualidade ou pulsão de morte, transformação é destino único. Minha vida não é um instrumento de trabalho, os produtos não são independentes e o poder é meu nessa ativação de personalidade produtiva. A morte pode ser final de tempo, mas a alegria é breve eternidade. Me acolho no Nirvana da gratificação constante, Eros e Thanatos em paz, estado sem carências. Não quero a dor de Brutus ferindo a quem ama e se escondendo na fraqueza da sua virtude. Quero olhar no espelho, suportar, reconhecer e amar os reflexos. Vejo os meus, vês os teus? Ou tuas drogas lícitas te facilitam absorvição? As minhas são apenas canais, vertentes da minha realidade emocional. Faço o que sou. Cansei dessa pretensa maturidade dos amantes do espetáculo. Prefiro o espetáculo inocente, ingênuo no experimentar de si mesmo. Pessoas livres. Não exijo o que dou mas se exiges ao menos comece a dar. Memória do passado é domínio de outrora. Jamais somos os mesmos. Será que sabes quem és hoje? A moralidade é socialmente útil mas a coragem da sinceridade interior é irremediavelmente necessária. Impeça a alienação, não permita o consumir-se pelo medo, faça as pazes com o ato de bondade. Leve em consideração sua crença no correto, mas acredite: em consideração não há julgamentos há reconhecimento de sentimento. É a generosidade de ouvir como se fosse a si mesmo. Me permita dizer Virginia, cada um se tem fechado em si. Como um livro que se conhece a cor, como um livro que os amigos levam apenas o título, cuja tinta algumas vezes é, ao próprio autor, invisível.