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Cheiro

Posted by Eve Rojas on 6:11 AM in , , , ,
Ontem pus meu corpo cansado na cama com a certeza do sono. Escolhi a melhor posição, fechei meus olhos vermelhos e senti o teu cheiro. Cheirei o lençol, abracei o travesseiro, tirei as cobertas. Nada. Senti minhas roupas, meu cabelo, lavei o meu rosto. Nada. O cheiro parecia tomar o quarto, o corredor, a casa. Parei nas lembranças. Perguntei aos mecanismos psíquicos, indaguei a loucura. Sem entender como, me restava buscar o por que. Nada. Em agonia, agora era tua presença. Tua figura incólume, tua pertubação sem essência. Os poucos anos contigo se expandiram em terror e alívio. O fim sempre esteve longe. Horas de análise em um corpo em transe. Inércia motora, vida imaginária. Roteiro escrito com lápis de cera, personagens criados com massa de modelar. Anos de solidão em casa cheia. Mais uma ficção do quarto secreto, do cinza dos livros, das promessas em pó. Na gentileza brutal dos teus braços, meus olhos fechados em cada página. Ativação do sublime pelo caminho dos pensamentos para resgatar matéria em desespero. Pedaços violados, perdidos no afã por serem esquecidos. Folhas de outono para o inverno passado. Partida desejada e comemorada em culpa. Culpa paga à juros altos de uma dívida tua. Perecestes como eu. Pedaço a pedaço destruído aos poucos. Os teus no corpo, os meus na alma. Ansiei pelo teu colo, pedi a tua mão. Pervertestes meu desejo. Vias paraíso e me deixavas o grilhão. Estais a milhas de distância. Nessa publicidade esvaziada, a decomposição das formas de sociabilidade. Intimismo progressivo, equilíbrio conveniente. Infame promiscuidade sagrada. Por muito desativei meu aparelho pulsatório humano. Mas não terminei ainda. Todas as manifestações são fundamentais, todo bem espelho do mal. Problematizo a moral do desejo mas não perco o referencial. Consciência de si sem ansiedade, docilidade sem submissão. Transcendam o conhecimento. Quem mostra limite e finitude ao indivíduo? Eu só queria uma vida simples. Prescrições e procrastinações. Prepare-se que tudo está para vir. O ontem só é morto para quem não vê futuro. Desafios constantes aos modos de existência. Vontade de alteridade e uniformidade. Paradoxos sutis nas demarcações do ser. Corpos almejados, sefs possíveis. Práticas de si no conformismo e egoísmo do seu outro. Meus velhos valores para tua quase moral. Virei perita no processo reflexivo, me tornei censura para retóricas de risco. Fracasso do ato, sobrevivência do fato. Marcas da aversão, máscaras da aparência. Maquiados os sinais, o corpo é saudável. O cuidado é auto. Compensações aos deslocamentos, voltas ao mesmo lugar. Dores universais. Teus tapas doem como meus cortes. Sentimentos ambivalentes para contrários únicos. Fardos são trocados em uma soma sempre de zero. Erguem-se defesas, mas fronteiras são inseguras por definição. Nos usamos em um vício decaído, eu inocente e tu perdido. Abrem-se as portas, da sombra à luz. Partistes para a existência livre, mas ressoas no meu novo ser que não te ouve mais. Causa mortis? Acrasia. Todos donos do próprio destino em contato ou não com a divindade. Achem os supérfluos, os indispensáveis se perderam na curva de normalidade e o distúrbio virou padrão. Atirada ao mundo, me agarro a imaginação. Cansei de me roubar. Não te quero mas me preciso de volta. Queria lembrar com prazer do teu cheiro.


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Vício inesperado

Posted by Eve Rojas on 5:57 PM in , , , ,
Lembro de quando amar um dia foi simples, quando aceitar o bem fazia sentido. Ultimamente o mundo não parece tão honesto. Anulo a metafísica e a moral? Talvez o tempo não seja de decadência mas de especulação. Ah, o transcendente e o eterno, nada mais que uma preparação para a morte. Está afim de usar a hermenêutica? Diálogos...Completos de vazio. Um dia ainda alcançarei a sabedoria do desapego da ação e do afeto. Embora suspeite ser mais diminuição do que aumento de valor. Elementar função negativa defensora. Só consigo encontrar a grandeza verdadeira no conhecido mais desconhecido amor. Quem sabe vejo a sua face além-túmulo. Piedade Wagner, piedade, porque sofro nas repetições e acordes isolados de Debussy. Dentro de uma dependência entorpecente, um dia por vez. Nunca disse muito, por temer não ser o bastante e o nada virou excesso. Te conheci com os dados imediatos do sentido. Logo me movi irracionalmente, encontrei o vício e a angústia latente. Os estóicos diriam: Aniquila! Paixão é substância má. Mas renuncio as honras do mundo, se tu vieres comigo a fortaleza dos loucos. Insanos por este afeto devastador, por essa vontade incessante de ter-te entre os braços. Fecho meus olhos, reconheço e louvo a tua respiração, vejo o teu sorriso-levado através dos teus olhos que me buscam por baixo. Não há como escapar, não há mais torre de marfim e julgamento é suicídio voluntário. Declaro a virtude corrosiva e a morte da moral. Todos falhamos. Tento salvar o meu pensamento, no percurso meus músculos dilatam até o romper, sinapses perdem a cadência, comunicações são interrompidas. Corpos livres em divisa, vozes presas em anseio. Agora, prefiro rimas à enigmas, escrevo músicas em clave de fá. Deus há de me mostrar o caminho, porque meu corpo se move para onde está o teu ar. É um mergulho sem orgulho, por uma descarga emocional breve e violenta, de um prazer descomunal. Palavra jamais será pura na colisão de nossas almas. Grito uma prece ao infinito, seguro minhas lágrimas, rogo por solo fértil para essa flor linda, cujas raízes estão a flutuar sobre a aridez silvestre. Bençãos a beleza ímpar, somos inocentes. Somos inocentes. Surgem respostas inesperadas para propícias intenções reprimidas. Haverá lugar para arrependimentos? Será possível esquecer o peso do fardo? Não adivinho futuro. Vejo o céu se inclinando, me mostrando o fogo, dizendo que entre as nuvens minhas mãos nunca irão queimar. Os pés continuam no chão. Deixe-me ficar aqui por um momento. O resto dos tempos é um mistério obtuso e eu sou tua pulsação presente. Serei eu a nova amante de Lady Chatterley?

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Anjo sem halo

Posted by Eve Rojas on 11:17 AM in , , , ,
Em que centésima fila de farelo branco de neve a minha narina repousou para te trazer a vida? Crua. Tua carne não me amedronta. Sei, mesmo inteira, tenho tão somente teus pedaços. E gosto. Pouco me parece tanto. Último gole de vinho das várias garrafas degustadas em atos de turbulência. Taças intactas, corpos imóveis, desejos revirados. Pobre da moral, vítima de nós duas. Tudo voltará ao seu lugar, delírio é reversível. Me torno lúcida aos poucos pelas palavras na tua língua, ou seria pela tua língua em minhas palavras? Nitidez esquisita. Espasmos reais e vapores que se singularizam. Sou teu segredo sujo, és o meu erro inculto. Qual o próximo passo? Te fazer o jantar? Talvez, hás de responder, como uma dama de luxo dos antigos cabarés. Essa voz doce e esse corpo lascivo! Te afasta de mim, tépido poente. Te faço mínima e te quero mais, mas não ouses dizer ser minha. Não tenho nada, tudo faz parte de um grande acordo de empréstimo. Te estimo e te mimo, te preparo para ir ao amanhecer. Feliz, mas desconfortável. Como se o rio corresse ao contrário. Trabalhas o teu poder enquanto eu perco o sangue. Quem ganha, quem perde? É um jogo vazio. Ganha o instante e perde a eternidade. É hora de ir e teu corpo me chama, é hora de ir e tua boca passeia na minha. Minhas mãos desnudam tua pele, minha sensibilidade toca a tua... O perigo é iminente, das alturas a noite nos acoberta. Estamos no limiar. Subir no muro é metáfora. Já saltamos, falta apenas escolher o local da queda. Saber da busca só faz ter certeza da distância. Reconhecer o vazio é entender a inexistência do amor. Não precisas definir a tua cor, o arco luminoso continuará no mesmo lugar. Cura, corta, colore, escolhe, chora e põe a fora as faces que te faz ser. Verdades não são apenas para ser ditas, são para ser vividas. Não trago cansaço para teu tempo e espaço, marco compasso nessa sintonia sem pressa. Sou o gesto bravo que não se ensaia, o breve. Gota de cristal em mar de vidro. Não vai embora, não ainda. Brisa suave há de virar tarde purgatório? Eu ei de rogar clemência, por ser outro e não ousar ser um. De certo não sei sair. Desígnios torpes de um destino devorado em pó. Sopra! Logo terás nova conjuntura desenhada pelo ar que te mantém a vida. Em dias de sol também é preciso brilhar. Eu estou no ciclo das águas, abismada com a imensidão, esperando subir, me unir, cair e me dissolver no humano até chegar a lama que cobre o teu chão. Próxima parada? Reciclagem. Águas turvas são para as sombras cuja escolha foi não existir. Não me absorves, sou fogueira de mil sóis. Diante dos meus olhos teu feitiço há de acabar, mas segurarei a tua mão. Memória inoxidável. Sabor chocolate, delícia intoxicante. Te bebo, me embriago, assino e renuncio. Tua crença na santidade do desejo me tortura, sou anjo sem halo. Minha divindade é duvidosa e minha carne demasiado perecível.

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Espere por mim

Posted by Eve Rojas on 1:57 PM in , , , ,
Não estais sozinha esta noite. Na pele cortes rasos, assimétricos. O corpo se divide em negativo. As velas queimam lentamente, o fogo e o aroma é cena do insano. Dentro um vazio inculto, fora doídos músculos inexplicáveis. Tenho contado até que eu acabe. Vejo o fim sem reverso. Agüenta até lá. São tantas moletas diárias para quem só precisa ficar de pé. Dores fantasmas em membros reais. Sempre há linha no telefone quando se queria apenas ouvir o sinal de ocupado. Eu não estou lá. É engraçado como acreditamos não saber mais tentar. Vitimização irônica para quem acredita em coragem. Não consigo me dar o que preciso. O som do relógio irrita os olhos denunciando uma emoção persistente nas pálpebras. Será uma emboscada do destino a essa hora? Morreria eu com as armas nas mãos. Paradoxalmente a pressão me mantém viva. Atmosférica. Ensaios de adeus a uma vida inteira de desejos. Já não tenho mais o palco-deslumbramento da juventude. O segredo do roteiro já foi revelado. Nada é espontâneo ou surpreendente. Tédio desordenado, loucura furiosa, no lugar da espectativa alegre e do prazer infantil impaciente. Há quem acredite preencher vida com outra vida. Se desejarmos liberdade talvez aceitemos o conteúdo de nossa sentença. Só é possível caminhar com a planta dos nossos próprios pés. Passo a passo, dia a dia. Necessidade e voluptuosidade em conflito provendo o peso da existência. Ceticismo como consolação. Os dias estão apenas começando. Subsisto incitando o otimismo. Mas tenho tão somente a uma. Solidão. Companheira infinda, cruelmente leal e sem sangue-frio. Tudo mais cultivado por mim resiste em ser colhido, menos ela. Nesse combate perpétuo meus inimigos são abstratos e minhas vitórias última página do jornal de domingo passado. Inexistentes. Sou o próprio entreato, sem razão nenhuma de ser. Tanta miséria no mundo faz crer que desgraça geral é regra. Há os escolhidos em inquebráveis redomas ou felicidade é puro acidente? Mania de ser inteiro! Aprende a valorizar os pedaços. Não. Sentido só pode haver na exceção. Quero guerra com homens que não se partem. Quero banir a arrogância e ser o excesso em bocados. Tenho febre, resisto ao remédio e elimino a cegueira. Doença é loucura advinda da vontade hostil dos que não tem fome. Derrubam a minha porta, não vão me intimidar. Não há perda onde mora a ruína. Nem tente oferecer piedade, o caminho do resgate é o sofrimento imposto pela natureza. Vai passar. Vai passar. Sem aforismos ou filosofastros.

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